Tarauacá celebra 94 anos do Teatro José Potyguara: uma noite de arte, memória e identidade amazônica
- José Gomes/ SECOM

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Em uma noite emocionante e repleta de simbolismo, a Prefeitura de Tarauacá, por meio da Secretaria Municipal de Cultura, Turismo e Inovação, homenageou os 94 anos do Teatro Municipal José Potyguara. O evento, realizado na própria casa de espetáculos na noite de segunda-feira, 26 de janeiro de 2026, transformou o palco centenário em epicentro de celebração cultural, reunindo autoridades, artistas locais e a comunidade tarauacaense em torno da preservação da memória e da valorização dos talentos regionais.
Inaugurado numa manhã chuvosa de 26 de janeiro de 1933, durante o auge do ciclo da borracha na Amazônia, o Teatro José Potyguara é o mais antigo do Acre e um dos patrimônios arquitetônicos e culturais mais significativos do interior do estado.

Após décadas de efervescência – com bailes da Sociedade Esportiva e Dramática Tarauacaense, saraus poéticos e apresentações teatrais – e períodos de abandono, o espaço foi revitalizado em reformas recentes, incluindo uma reinauguração, e segue como símbolo de resistência cultural na região.
Um dos instantes mais tocantes foi o canto coletivo do “Parabéns ao Teatro José Potyguara”, entoado por toda a plateia, reforçando o laço afetivo da população com esse patrimônio que há mais de nove décadas faz parte da vida cotidiana do município.
Em seguida, o historiador Paulo Maia conduziu o segmento “Palavra Memória”, resgatando a trajetória do teatro. Ele lembrou sua construção em meio à prosperidade borracheira, quando Tarauacá (então chamada Seabra) se destacava como polo cultural no Acre Territorial, e enfatizou a importância do espaço para as gerações passadas, presentes e futuras.

A diversidade cultural do município brilhou na sequência de apresentações artísticas. O público prestigiou manifestações dos povos originários, que evidenciaram a riqueza indígena da região, além de números musicais de Anita, Fernando, Matheus Nascimento e do cantor gospel Randersson Brasil. A dança contemporânea do Grupo TK Dance, a declamação de poesia por Kalissa e a poesia urbana de MC Elias FT & MC Anastácio reforçaram a pluralidade de vozes tarauacaenses.

A programação teatral ficou a cargo do Grupo Canoa de Palha, que trouxe reflexão e emoção ao palco. O encerramento foi animado pelo Grupo Swing da Mata, que colocou o público para dançar e celebrou a noite em clima de confraternização. Ao final, um registro fotográfico coletivo reuniu artistas, autoridades, equipe organizadora e espectadores, simbolizando a união comunitária em torno da cultura local.

José Potyguara: o homenageado que deu nome ao teatro
O nome do teatro presta tributo a José Potyguara da Frota e Silva (1909-1991), jurista, escritor, dramaturgo e agitador cultural que marcou profundamente a história acreana. Nascido em Sobral (CE), formado em Direito, ele chegou ao Acre como promotor público em Tarauacá (então Seabra) na década de 1930. Filho de desbravadores da região – sua mãe Rita da Frota e Silva e seu pai Hipólito de Albuquerque Silva, que chegou a ser prefeito de Tarauacá nos anos 1920 –, Potyguara viveu intensamente o ciclo da borracha e o surgimento de uma elite cultural na Amazônia.
Ele escreveu peças teatrais pioneiras, como Alma Acreana (encenada em 1930 num palco improvisado em Tarauacá) e Razões do Coração (apresentada em 29 de janeiro de 1933, apenas três dias após a inauguração do teatro que hoje leva seu nome). Fundador de revistas, colaborador de jornais e professor no Colégio Acreano, Potyguara foi um dos primeiros a tematizar a realidade acreana em sua literatura.
Sua prosa inclui o livro de contos Sapupema: contos amazônicos (1942, o primeiro do gênero no Acre com temática exclusivamente regional), e a trilogia romanesca formada por Vidas Marcadas (1957), Terra Caída (base para a minissérie da Globo Amazônia: de Galvez a Chico Mendes, em 2007) e Do Seringal ao Asfalto (1984). Suas obras retratam com fidelidade os dramas dos seringueiros, o choque entre homem e natureza, e a luta por dignidade na selva, sendo elogiadas por escritores como João Felício dos Santos e Glória Pérez como documentos preciosos da era da borracha. Em 1967, Potyguara recebeu o título de Cidadão Acreano, reconhecimento pelos mais de 22 anos dedicados à terra que adotou como sua.
A comemoração dos 94 anos reafirma o compromisso da gestão municipal com a preservação do patrimônio cultural, o fomento às artes e o fortalecimento da identidade tarauacaense. Em meio ao anfiteatro amazônico que outrora viu o luxo da borracha e a exploração dos seringueiros, o Teatro José Potyguara continua a pulsar como espaço vivo de memória, resistência e criação.
Fotos: Katriel Viana
Informações históricas: blog ambiente acreano



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